Uma diretora “nascida e criada” na CASSI
Dos 47 anos de vida, Luciana Bagno ficou apenas três meses sem a cobertura da CASSI — intervalo entre o momento em que deixou de ser dependente do pai e a posse no Banco do Brasil, quando passou a ser titular do plano. “Sou literalmente nascida e criada na CASSI”, afirma a nova diretora eleita de Risco Populacional, Saúde e Rede de Atendimento.
A experiência como associada, usuária das CliniCASSI, líder sindical e gestora contribuiu para a construção de sua visão estratégica para a instituição. Entre as prioridades da gestão estão o fortalecimento da atenção primária à saúde, o foco em promoção e prevenção e a melhoria da coordenação do cuidado, especialmente de pacientes crônicos.
Como você define a CASSI, como usuária do plano ao longo da vida?
A CASSI é muito, muito além do que um plano e a gente tem o desafio de mostrar isso aos associados, principalmente para os funcionários mais novos: a CASSI é todo um ecossistema de saúde. É diferenciada tanto em relação aos planos de mercado quanto na comparação com os de autogestão, pela forma como ela surgiu, criada pelos próprios funcionários. Sou filha de funcionário do Banco, nascida e criada na CASSI. Fiquei três meses sem o Plano de Associados na minha vida inteira, porque eu fiz 24 anos em 12 de dezembro e o BB me chamou em 17 de março do ano seguinte. Meu pai que inaugurou o CASP de BH (centro de atendimento médico antecessor das CliniCASSI), então eu nasci e cresci dentro daquele ambiente. Ficava lá com meu pai, era atendida por médicos que nos acompanham até hoje e que, na época, eram funcionários do Banco também. A CASSI sempre nos deu assistência ao longo de toda a vida, não só nas questões de doenças, mas também de situações que a gente passava na família, com a ajuda de psicólogos. Eu desconheço que exista algo assim em qualquer lugar do país e do mundo, pelo menos do ocidente. Um sistema como nosso acho difícil ter outro igual.
Quais serão as prioridades da sua gestão?
Como tudo na vida, acho que a gente tem muita coisa para melhorar, avançar. Não no sentido de mudar a CASSI que a gente conhece hoje, o modelo, muito pelo contrário! É no sentido de fazer funcionar para valer o modelo que a gente acredita, que é a atenção primária, trabalhando isso de fato, com prevenção e estratégia de saúde da família. Ampliando as nossas clínicas, com as reformas e relocalização, que é uma coisa excelente que a gente precisa continuar fazendo: reformar as que não têm condições de atendimento, relocalizar para que os funcionários, tanto ativa quanto aposentados, tenham um acesso mais fácil. Mas eu acho que vai muito além disso. A gente precisa elevar as nossas clínicas ao status de unidades de atenção primária, de fato, fazendo aquele cuidado contínuo e preventivo de cada associado, cada vez mais trabalhando com a saúde, não com a doença. Não no como se fosse uma UBS (unidade básica de saúde) simplesmente, que vai atender demandas de pessoas que já estão chegando doentes.
É óbvio que precisamos continuar nesse sentido também, ter a CliniCASSI como porta de entrada, para a pessoa vir primeiro, antes de é procurar um hospital ou. Mas não só isso. A gente tem que trabalhar cada vez mais com a questão de prevenção e ser mais proativo com relação a levar atenção primária para os associados. Hoje se você pegar o número de cadastrados na nossa atenção primária, como está no relatório anual, é tudo lindo, um número bacana. Mas se olhar a fundo quem de fato faz o acompanhamento com o médico da família, quem de fato está ali dentro daquela estratégia, são pouquíssimos. E o público da ativa menos ainda! E é assim por motivos diversos. Onde temos clínica nem sempre há facilidade de acesso. Em grandes capitais, como São Paulo, por exemplo, com muito trânsito, a pessoa às vezes tem dificuldade de sair no horário de trabalho e para ações de prevenção, que geralmente não são valorizadas. Quando o funcionário fala “chefe, preciso de ir porque estou muito mal” ninguém questiona. Se o funcionário fala: “preciso de ir porque eu preciso me cuidar”, o gerente não reage da mesma forma e isso é uma questão de cultura que a gente tem que mudar.
Como que se muda essa cultura?
Vamos precisar de muito trabalho em conjunto com as diretorias, com muita harmonia com o próprio banco também. Primeiro, precisamos comunicar melhor para o funcionário, promover cursos de formação na Unib, para ele se apropriar do que é essa atenção primária que a CASSI oferece. Mas só isso não é suficiente. Eu falo conscientização, que é importantíssimo, mas sozinha ela não traz as pessoas para atenção primária. Precisaremos ser proativos: ir buscar esse funcionário para atenção primária. Ter clínicas, de acordo com a viabilidade, quantidade de vidas atendidas, CliniCASSI e clínicas parceiras, células avançadas que a gente quer implantar, e a Telessaúde Atenção Primária. Esses sistemas, na minha opinião, eles podem funcionar, principalmente a telessaúde de maneira híbrida. Eu não preciso de ter telessaúde para atenção primária só naquela localidade onde não tem clínica, eu posso implantar isso nas capitais também. Dessa forma, aquele funcionário que não dispõe de tempo, ou por razões diversas, principalmente as mulheres, para poder ir a uma CliniCASSI, pode fazer o acompanhamento pela telessaúde. Alguns, claro, uma ausculta pulmonar, por exemplo, não tem jeito, é presencial, mas a maioria dos acompanhamentos de prevenção é uma conversa, são pedidos de exames, são prescrições médicas. E isso pode ser feito pela atenção primária de forma remota, em qualquer local do país. A gente teria um ganho enorme de qualidade de vida do funcionário, de percepção de valor, né, da atenção primária do associado. Hoje muito poucos veem esse valor. E gera ainda uma melhor qualificação do nosso custo assistencial.
Ninguém quer ficar doente, a gente quer ter qualidade de vida.
“A gente tem que trabalhar cada vez mais com a saúde, não com a doença.”
Como promover a cultura do cuidado preventivo entre os associados e vencer a ideia de que médico bom é aquele que prescreve muitos exames, fortalecida pelo mercado de saúde, de que quanto mais especialistas, melhor?
Essa mudança passa por várias vertentes, a solução não é uma só. Infelizmente, como tudo no Brasil e no mundo existe uma polarização muito grande e isso alcança questões como quantidade de exames, de medicações, suplementações. Existe aquele associado que quer ir para aquele médico que vai receitar um milhão de coisas, pedir um monte de exame e tem aquele outro que é radical que não. Tudo passa pela qualidade do atendimento, no sentido de cada paciente ser olhado de maneira muito individualizada. Não quer dizer que pedir muito exame é errado, que pedir pouco exame é certo. Eu tenho que pedir os exames corretos, necessários para aquela pessoa. Nem mais, nem menos. Isso é passa também por uma questão de treinamento do nosso corpo clínico, que, se não está sendo feito, temos que fazer. A conscientização também passa pela comunicação efetiva com o nosso público, para explicar para eles que a CASSI é um de todos nós.
Como fortalecer a corresponsabilidade do associado com a sustentabilidade do plano?
Isso é importantíssimo. Precisamos desenvolver mecanismos eficientes de gestão para conter isso, a conscientização ela tem sempre que existir, mas a gente não pode ficar contando com a conscientização para ter esse resultado. Eu acompanho a CASSI de perto desde 2006. quando teve a primeira reforma estatutária que eu vivi dentro do Banco já. Eu ouço muito falar dessa questão de conscientização, de as pessoas verificarem o extrato. Isso é bacana, tem que continuar existindo, mas a história prova que isso não adianta, só isso não funciona. Hoje eu acho que com inteligência artificial, principalmente, a gente consegue criar mecanismos para evitar o desperdício. A CASSI, ela não pode contar só com associado para isso.
Outra coisa é uso de mecanismo de recompensa. Eu sei que isso é polêmico quando se fala de saúde, os médicos não gostam muito, mas a própria a própria não cobrança de coparticipação nas CliniCASSI é um mecanismo de recompensa. Então por que não trabalhar outros mecanismos de recompensa para esse associado ter mais esse olhar de prevenção, de cuidado com a CASSI, com ele mesmo. Cuidado com a CASSI também nessa questão do desperdício.
Que CASSI você pretende entregar ao final da sua gestão?
Estou chegando com tanta energia, com tanta vontade de fazer. Pela experiência, sei que eu vou encontrar obstáculos burocráticos, normativos, mas eu quero muito deixar uma CASSI melhor do que eu encontrei. E deixar uma CASSI melhor do que eu encontrei para mim é deixar uma CASSI mais saudável, mais sustentável financeiramente e os associados com uma percepção de valor maior em relação à CASSI em relação percebo hoje. Desejo mais associados com essa percepção de valor. Não quero ter que, daqui a quatro anos, ter que convencer os funcionários, os associados de que o que a gente faz é bom. Eu quero que eles percebam isso por si só: “Olha, mudou, está melhor, tem um atendimento melhor, esse negócio de atenção primária funciona, estou adoecendo menos, gastando menos”. A gente quer uma CASSI eficiente, sem perda de qualidade assistencial, ao contrário, levar mais qualidade assistencial otimizando custos.
Daqui a quatro anos, quero ter entregue uma CASSI bem melhor do que a gente tem hoje, que já é sensacional.
Quais as estratégias para levar mais pessoas para as CliniCASSI?
Isso está no plano de gestão da nossa Diretoria, que é exatamente a expansão da atenção primária, e que envolve as outras diretorias, o que é, para mim, fundamental: a interoperabilidade. Já conversamos com a área de Relacionamento sobre a criação das redes temáticas, o que vai ser uma grande virada. Elas vão ser como um subproduto das redes referenciadas que a gente já vem fazendo, de acordo com a a classificação do prestador, remunerando melhor esses prestadores para fazer um atendimento melhor do do nosso associado. As redes temáticas começarão com saúde do trabalhador, neurodivergente e saúde da mulher ou oncologia. São formadas pelo público que mais sofre com falta de desfechos positivos e que exige acompanhamento constante, que comumente fica perdido na rede: vai num médico, não resolve, vai no outro. Uma mulher na menopausa, ela não precisa só do ginecologista, ela precisa de um ginecologista, endocrinologista, nutricionista, nutrólogo, um psiquiatra, de repente, um psicólogo. É um tratamento interdisciplinar. Vamos constituir essa rede a partir de estudos, com os profissionais que a gente vai trazer dessa nossa rede referenciada. Com isso, vamos poder orientar melhor aos crônicos, diabéticos, hipertensos. Poderemos orientar esse participante dentro da nossa rede temática, de forma que ele já saiba qual profissional que ele vai procurar, qual clínica que é melhor ele ir. Vamos dar um direcionamento, não deixar ele solto. Com isso, conseguiremos qualificar o atendimento para essas pessoas e dar uma perspectiva, uma qualidade de vida muito melhor, porque são condições que não vão se resolver, e eliminar ou reduzir muito desperdício. Não é igual a ter uma pneumonia, que você interna, depois tem alta e volta à vida normal. Não, a maioria dessas pessoas crônicas vai conviver a vida inteira com essas condições e precisam de ter melhor qualidade de vida e melhor perspectiva.
Essas propostas são inspiradas em algum modelo externo ou é evolução do que você vê dentro da CASSI?
É uma evolução do que a gente tem visto. As ideias não surgem do nada. Os eleitos [para a CASSI] têm trazem muito da nossa trajetória, do estar presente nesses espaços com muitos associados. O que a gente ouve como deficiência, como reclamação ou que a gente vê até através dos estudos de risco populacional, dos relatórios, do próprio relatório anual da CASSI, entendemos como uma oportunidade de melhoria e aí a gente começa a pensar nas soluções. Isso vem sendo pensado e estamos muito alinhados com a Diretoria de Relacionamento, vamos trabalhar muito em conjunto para isso funcionar. partiremos daquilo que a gente tem. Minha frase da vida é sempre ‘o ótimo é inimigo do bom’. A gente começar fazendo alguma coisa, se não deu certo, volta. Não tem problema nenhum de falar que não deu certo. Mas a gente vai atuar com base em estudos, é claro.
O motivou você aceitar esse desafio de ser diretora de uma CASSI neste momento?
É amor. Tinha 10 dias que eu tinha feito minha cirurgia de mastectomia, porque tive um câncer e estava afastada, tratando, ainda de licença, quando me ligaram para fazer o convite para eu concorrer. Foi um minuto de silêncio. Mas eu tenho uma paixão tão grande pela CASSI que eu respondi na mesma hora: topo. Claro que topo. Quando você vai para o movimento sindical, você vai para um ideal. Você não sabe quando você vai voltar para o Banco, como que vai ser, você tenta fazer o seu melhor, mas é uma coisa que é muito mais de um ideal, de uma paixão por aquilo do que por uma questão de carreira. Eu sou muito grata por isso, me sinto extremamente privilegiada e uma mulher de muita sorte por poder estar ocupando esse cargo que para mim é tão importante, tão apaixonante.